Desassossegado, seguro no copo de Old Bushmills sem gelo e tento ler mais umas inquietantes páginas de Beckett, fecho o livro, acendo um cigarro, fico a olhar a espiral de fumo, levanto-me da poltrona de couro, escolho um livro fácil da estante de nogueira, um dos russos, decido-me por Dostoievski, continuo inquieto, sento-me, desespero, levanto-me de novo para colocar Beethoven no sistema de som, circulo pelo escritório, mão no queixo, pensativo, isto não me sai de cabeça, a dúvida, a incerteza, afinal por onde andará o tipo moreno dos Wham, aquele que não era o George Michael?
23/02/12
Injustiças
Elas, para nos atraírem, têm que ter unhas bem cortadas, pele sedosa, um ar de mistério, dentes brancos, Pamuk debaixo do braço, sorriso enigmático, chave de automóvel alemão na mala, decote Dior, cabelos louros, apreciar Goya, olhos verdes, sapatos Manolo Blahnik, saber esquiar, não estranhar a música exacta e saber onde se janta em Paris.
Nós, para as atrairmos, basta-nos saber escrever razoavelmente.
22/02/12
Há uma altura em que eu acho que a troika devia mesmo pegar nisto...
... é quando ouço a Dona Maria da Dores, de A-das-Lebres, pedir na Rádio Voz de Arganil a música da Vânia Micaela, "És tudo para mim" e dedicar ao filho que está na França, à Dona Floripes que está doente, coitadinha, ao netinho, ao Senhor Armindo de Rebordosa, que lhe deu uma coisa a podar as oliveiras, a mais trezentas e setenta e duas pessoas, tudo muito bem justificadinho e, finalmente, dedica à apresentadora do programa e ainda lhe pergunta se os rissóis de carne que lhe mandou lá para a rádio estavam bonzinhos, e estavam.
Há alguma coisa de positivo na falta de chuva
As botifarras de borracha de cano alto que custam duas garrafas de Pera Manca de mil nove e oitenta e cinco cada uma, estão lá no fundo dos armários...
21/02/12
Só desgostos, a minha vida é isto...
A segunda coisa que mais me aborrece é quando sirvo um vinho de primeira qualidade, uma coisa em bom, um aturado processo de conjugação do vinho certo com a carne de veado selvagem morto com um só balázio e os energúmenos não reagem, um homem ali na cabeceira da mesa, em suspenso enquanto levam o copo de cristal da Boémia aos lábios, "este vai notar que está a degustar uma preciosidade", pensa um homem, afinal não, o alarve ataca as anchovas sem sequer se deter na graciosidade do vinho, um homem desespera, um a seguir ao outro, amigos de uma vida, nem uma palavra sobre o equilíbrio do néctar com a robustez da carne de caça selvagem, um após outro levam os copos aos lábios que eu julgava apreciadores e nada, continuam a falar do Sá Pinto e das alegrias que aquela equipa ainda nos reserva, Polga incluído, um homem observa tudo isto desde a cabeceira da mesa e fica a cismar que para a próxima lhes servirá vinho de pacote, sempre se poupavam para cima de duzentos euros.
A incrível história do título de post que era muito maior que o próprio post, sendo que o que estava no próprio post era extremamente relevante e digno de reflexão
Já só estamos a treze pontos dos da frente.
20/02/12
Primeiras impressões da blogosfera
Elas são melhores que nós em quase tudo. Menos a escrever blogues.
19/02/12
Está debaixo dos vossos olhos
Nas noites de insónia profunda, como a de hoje, vimos o que nunca conseguimos ver, há mais definição no que sempre esteve debaixo dos nossos olhos, nunca, como esta noite, me tinha apercebido do olhar embevecido do Von Karajan a olhar para a Leontyne Price, a soprano, ela negra, ele ainda com a simpatia nazi a pesar-lhe, eu a vê-los a ambos ligados pela maravilha que é a música, que tudo aproxima e tudo faz ter sentido, nada mais importava, que importava se a Price era negra ele simpatizante do nacional socialismo?, a mim restou-me fechar os olhos, apertar com força o copo de conhaque que segurava na mão, acender um cigarro e deixar-me estar ali sossegado a ouvir Lacrimosa dies illa qua resurget ex favilla, Judicandus homo reus, pensando para comigo que poderosa música é esta que consegue que o Karajan olhe para a Price de tão respeitosa forma.
18/02/12
Dia quinto
Ao quinto dia de ter um blogue quer-me parecer que desta vez o Matos está errado, um blogue não amacia os desgostos de amor, é estranho o Matos ter-se equivocado mas estou capaz de me ir por aqui entretendo, até porque me chegam estranhas missivas a cumprimentar-me pelo meu regresso, já fui muitas coisas mas não me lembro de ser o que chegou antes de ter chegado, as pessoas às vezes são possuídas por estranhas certezas, ainda ontem pensava eu jantar com a Maria Rita, a Maria Rita é daquelas mulheres com quem vale a pena jantar, olhar seguro, eu faço de conta que ela é quem manda e ela faz de conta que acredita que sim, além disso a Maria Rita é dona do terceiro mais vistoso interior de decote da minha cidade, o problema da Maria Rita é perder a compostura ao terceiro copo de Syrah, em sendo de Cabernet a coisa dá-se pelo segundo e eu sou pouco apreciador de mulheres que percam a compostura, ensinaram-me assim, nada a fazer, à Maria Rita começa a escapar-se-lhe o filtro naquilo que quer dizer por volta do terceiro copo de Syrah e a coisa é-lhe fatal, eu transmiti-lhe que os jogos são para se jogar até ao fim, não se pode mostrar os trunfos ao parceiro ao terceiro copo de Syrah, ainda que se tenham os terceiros melhores argumentos da cidade, a Maria Rita não apreciou a minha nobre resistência e foi à vida dela, a vida é mesmo assim, o que a Maria Rita não sabe é que voltará a jantar na minha humilde companhia um destes dias, a Maria Rita não sabe, mas é daquelas mulheres que voltam, a Maria Rita tem cara de que é das que volta sempre.
17/02/12
Manchester City-Sporting
O problema, caro Sá Pinto, é que eu não quero que o meu clube ganhe assim, aposto dez contra um que os jornais vão falar de estrelinha e de coração de leão e outras coisas bizarras, como se ganhar um jogo de bola tivesse que ser coisa sofrida. Não jogámos, meu caro Sá Pinto, essa é que é essa. Jogar contra aquele clube com que jogámos ontem, que nem me recorda o nome, não ganhar largueiro e o Patrício ainda ser o melhor em campo, é coisa que me bule com os nervos e eu sou, como é por demais sabido, uma pessoa que sofre com os nervos e eu não desejo sofrer mais dos nervos derivado de assistir a jogos assim. Aquilo de abraçar o Paulinho roupeiro pode ser bonito para as fotografias, e para mostrar que somos todos lá de casa, mas, meu caro, isso e abraçar os suplentes e os jogadores de campo e a rapaziada toda que estava ali ao alcance de um abraço, revela um coeficiente de abichanamento que eu pensava que só existisse do outro lado da segunda circular, aquilo parecia aquela miudagem do "give me a hug" na estação central de Amesterdão.
Maneiras que, caro Sá Pinto, lá por eu e o Matos estarmos a considerar ir a Manchester ver os nossos contra os de lá, não quer dizer nada, se calhar nem vamos, nós nem gostamos muito da cidade, a não ser o bar do James que é um tipo que tira Guinness como ninguém.
Vê lá isso, Sá Pinto. Vê lá isso.
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